SÃO PAULO - 13⁰C 19:45 (PRONÓSTICO DEL TIEMPO)
Es el invierno que se resiste a morir… Son las minúsculas gotas de su rebeldía flotando húmedas, leves, como aferradas al viento, desafiando su destino al caer. Son los destellos de los autos refractándose en los charcos… Multiplicados, aleatorios, tornando lo gris en dorado.
Son los 13⁰C o el peso de la ropa, el aroma de las calles mojadas, el chocolate caliente a media tarde, los relámpagos distantes, la tormenta que se huele, la manta extra en mi cama… Debe ser todo eso junto, o tal vez eres sólo tú que no vienes y me dejas encadenado a tu recuerdo, compulsoriamente enfrentado a los vestigios de tu paso.
Sí, debe ser todo eso, o quizá simplemente…Sea el invierno que se resiste, con uñas y dientes, a morir.
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Fátima Venutti -
Aquela manhã de sexta-feira mostrava-se difícil de ser digerida. Enquanto do lado de fora o velho São Pedro fazia faxina no céu jogando baldes e baldes de água, eu estava totalmente estático, olhando pra tela do computador, com uma coluna pra ser entregue até o final daquela mesma manhã. Detalhe: sem idéia nenhuma do que iria escrever (como todo colunista que se preze).
Já havia tornado uma garrafa de café e acabava de acender o último cigarro do maço (já pensando que não poderia sair para comprar outro e iria curtir aquele vagarosamente). Olhei para o relógio: 10hs25min. Eu tinha exatos 35 minutos para desenvolver um texto de duas laudas e enviar por e-mail ao jornal. Onde havia deixado a minha inspiração?
Esmaguei pensativo o cigarro no cinzeiro e busquei instintivamente com o olhar um vulto que acabara de passar pelo lado de fora da janela e, num impulso, arremeti a cadeira para trás e fui conferir. Nada havia a não ser um tímido desejo de o sol aparecer para secar a água sobre o asfalto e aquecer um pouco mais aquela gélida manhã.
Voltei-me para o computador e num repente avistei aquela menina parada timidamente recostada ao corte da parede de acesso à cozinha e a sorrir para mim.
- Que susto, menina! O que está fazendo aqui? Como entrou? Quem é você?
Meu coração, em disparada desordenada parecia que queria caminhar do peito à boca, sem escala. A menina, somente sorria. Vestido florido rosa, cabelos de um tom caramelo adornado com duas tranças; meias brancas e sapato de verniz preto. Por um instante, fechei os olhos e pensei: estou vendo coisas, deve ser muito trabalho, a pressão da crônica que não sai... Ao abrir, lentamente, lá estava ela, ainda. Desta vez, esticava os braços e me chamava para acompanhá-la. Irritado, levantei-me e com as mãos na cintura, feito alça de xícara, falei em tom mais intimidador:
- Olha aqui, eu não sei quem você é ou como entrou aqui. Tenho uma crônica pra entregar em 20 minutos senão perco meu emprego. Então, quer fazer o favor de ir embora?
Novamente e sem se ater ao meu nervosismo ela sorriu, porém, a passos contados, veio ao meu encontro, pegou em minha mão esquerda e num ato de condução, foi me puxando para acompanhá-la. Sem reação e para finalizar a situação, segui seus passos. De repente, senti tudo escurecer e uma forte pressão na cabeça. Desmaiei.
Havia fumaça por todos os lados, muita conversa em voz alta e um aroma que me era familiar. Aos poucos, a imagem foi se abrindo e pude tomar conta de onde estava. Uma mistura de prazer, dúvida e incompreensão tomaram conta de mim. Eu estava em uma estação de trem.
Era noite e uma enorme lua cheia reluzia no céu cravejado de estrelas. À minha frente, aquele enorme e majestoso vagão prateado com suas janelas quadradas e de meio vidro. A fumaça ia se apagando pelos trilhos e soltando o cheiro inconfundível de óleo queimado adentrando pela minha narina e sendo saboreado pela minha alma. Pensei: deve ser um sonho e assim vou aproveitá-lo nostalgicamente. Comecei a caminhar, lentamente, hipnotizado pela oportunidade de sentir novamente o vento rasgando meu rosto, de ouvir o apito e de sentar-me nas poltronas desconfortáveis. Eu desejava fortemente entrar dentro dele. Quando percebi, aquela menina ainda segurava minha mão. Meu impulso foi de trancar as sobrancelhas, olhar bem pra ela e num solavanco, puxar minha mão presa à dela. Mas meu coração estava tão radiante por saborear aquele momento que a única atitude que consegui ter foi a de inflar o peito com ar e desenhar um largo sorriso em meu rosto só pra ela.
Ela correspondeu e, ainda segurando minhas mãos, conduziu-me à frente do trem. Enquanto passávamos pelos vagões, uma outra criança adormecida dentro de mim acordava. De olhos arregalados, buscava em cada imagem um pedaço das viagens que eu havia vivido. Quando me dei conta, eu estava frente a frente ao mais belo maquinário que o homem foi capaz de inventar: a locomotiva. A luz da lua colaborava iluminando o limpa-trilhos e deixando à mostra toda a imponência do nariz daquela inesquecível peça. Pela minha face, as lágrimas iam saltando sem controle. Podia sentir minhas mãos sendo apertadas mais fortemente por aquela criança, feito uma frase de apoio e de certeza de que o que eu estava sentindo era mais forte do que eu mesmo. Ali, extasiado, embriagado e perdidamente sem compreensão alguma do que estava vivendo, senti o golpe fatal: o primeiro apito da partida.
Aquele som ecoou em minha mente recortando, feito um quebra-cabeça, todas as minhas memórias dos sons que eu guardava cuidadosamente. Ria, chorava, vibrava. De mãos dadas, a menina me conduziu a dar passos para trás, afinal, meu brinquedo de criança ia partir. A fumaça iniciava seu desenho por aquela noite bailando por sobre a locomotiva e depois, sobre os vagões.
Passageiros apressavam-se em passar pela catraca de embarque, abriam-se janelas, outras se fechavam. Rostos apareciam pra fora buscando enxergar o comprimento do trem ou ainda avistar o amigo, o parente que ficara na plataforma. Novamente o trem apitou e desta vez, segundos bastaram para começar o seu bailado sobre os trilhos, deslizando lenta e deliciosamente. Ah, aquele som, aquele aroma, as luzes internas dos vagões passando em minha frente e o desejo enorme de estar dentro dele, sacolejando de um lado para o outro no corredor, esbarrando em um pé esquecido ou desviando do vendedor de chocolate quente. Ainda pude acompanhar com o olhar a visão do último vagão adentrando na escuridão da noite e a locomotiva surgir com seu clarão na curva, deslizando à luz da lua.
Novamente tomei um farto punhado de ar e levei aos pulmões, olhei para a menina que, estática, acompanhava cada sentimento que eu vivia. Levantei os olhos para a lua e os fechei na intenção de jamais esquecer a visão da sua companhia naquela experiência.
Havia um cheiro forte de café fresco. Quando abri os olhos, debruçado estava sobre minha mesa. Lentamente fui levantando a cabeça e acordando daquele sonho. Fui até a cozinha, preenchi o vazio da xícara com aquele negro café e por segundos me perdi na fumaça do café que ainda escorria pelo coador. Olhei pela janela e o sol já assumia sua imponência rasgando o veio dos galhos das árvores e esquentando o asfalto. Do outro lado da rua lá estava ela: a menina. Estática, sorria pra mim com uma felicidade contagiante. Retribui instintivamente acenando. Foi quando me dei conta da crônica.
Joguei o resto de café na pia, larguei a xícara e fui correndo olhar o relógio na parede: eram 10h55min e eu tinha somente 5 minutos para mandar um texto que nem havia começado. Desesperadamente tomei posse do meu lugar e eis que quando olhei para a tela do computador, lá estava ela. Pronta, linda e perfeita. Só me restou acessar o e-mail e enviar.